Quarta-feira, 25 de Abril de 2007

«Notas de viagem 7»

«O Diário de Anne Frank deve ter sido um dos primeiros livros “adultos” que li no início da minha adolescência. Já conhecia, nomeadamente dos filmes americanos que devorava e do que se falava em casa, os factos mais marcantes da Segunda Guerra Mundial e sabia o que era o Holocausto. A leitura do Diário marcou-me imenso e anos mais tarde ao relê-lo senti também uma cadeia de emoções. Das vezes anteriores em que estive em Amesterdão, nunca consegui ver a Casa de Anne Frank, por isso desta vez decidi que teria de o fazer, apesar de saber que pouco havia para “ver” (a visão é um dos sentidos que mais é estimulado numa ida a um museu: no museu vê-se). Não me enganei: havia pouco para ver. Uma estante que escondia umas escadas, e um aperto no coração ao subi-las. Uns espaços pequenos, um quartinho com fotografias de actores e actrizes coladas na parede a lembrar-nos que a adolescência é sempre a adolescência, uma cozinha/sala/quarto, um sótão e a dificuldade em perceber como oito pessoas ali viviam e conviviam. Mas o detalhe que mais me impressionou e ao qual maior valor simbólico atribuí, foi um caderno manuscrito de Margot, a irmã de Anne, com os seus trabalhos e deveres de Latim. A familiaridade desse objecto, o facto de mesmo em guerra, mesmo em privação, se manter a vontade de aprender de estudar, de se valorizar, o facto de se impor uma disciplina e uma normalidade, numa altura em que qualquer um “compreenderia” a “falta de motivação”, as “dificuldades” os “desajustes” as “dissonâncias” as “frustrações” as depressões” ou outras desculpas com aval dos psicólogos de serviço é verdadeiramente comovente. Ali estava uma rapariga nova de uma família abastada a quem nada faltava e a quem o futuro sorria, perseguida, escondida, humilhada, privada da vida normal e de tantos bens materiais a que sempre teve acesso e sem saber o que o futuro lhe traria, a fazer trabalhos de Latim. De facto a casa tem pouco que “ver”, mas aquele caderno é um completíssimo tratado sobre a vida: é só querer ver.»
JCD
publicado por MJ às 00:10
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