Sexta-feira, 17 de Agosto de 2007

A política da memória

por Esther Mucznik - 2007.08.16, Público
Investigadora de temas judaicos

No passado dia 4 de Agosto, morreu Raul Hilberg, o grande historiador do Holocausto. A imprensa sublinhou a morte de um "ícone". A verdade é que Hilberg morreu como sempre viveu: só, intelectualmente só. O seu destino foi traçado pelo turbilhão da primeira metade do século XX: filho único de uma família judia originária do Nordeste do Império Austro-Hungaro, de língua polaca e emigrada para Viena no princípio do século XX, refugiou-se com a sua família em 1939 nos Estados Unidos. Raul tinha 13 anos e a sua primeira lembrança, enquanto viajava de autocarro de Miami em direcção a Nova Iorque, foi a inscrição nos bancos reservados para "as pessoas de cor". "Eu, que não estava autorizado a sentar-me nos bancos dos parques de Viena com a inscrição Nur fur Arier (só para arianos), acabava de ser catapultado para um escalão superior ao de muitos americanos nascidos na América", escreveu ele no seu derradeiro livro, A política da memória. Tal como os seus pais, trabalha numa fábrica enquanto acaba o liceu e inicia os estudos de Química, que interrompe aos 18 anos, quando é mobilizado para o exército, em 1944. Sob uniforme americano, parte para a Europa, onde assiste ao final da guerra e onde algumas questões que o perseguirão ao longo da vida começam a aflorá-lo: "Numa noite de Abril de 1945, na Baviera, eu contemplava o solo juncado de cadáveres de alemães mortos e rechaçados pela nossa artilharia, depois de uma tentativa desesperada de assalto. O que tinha levado esses homens num estádio terminal da guerra a precipitarem-se em direcção a uma morte quase certa? Porque obedeceram a uma ordem dessas? Porque não se amotinaram?". De volta a Nova Iorque, Raul Hilberg abandona definitivamente a Química e concentra-se na História e nas Ciências Políticas. A sua origem austríaca e europeia, a deportação e a morte de avós, tios e primos no Holocausto e a sua estadia na Europa no final da guerra determinam o tema a que dedicará toda a sua vida: a destruição dos judeus da Europa. Esta destruição, Hilberg não a vê como um massacre no sentido clássico do termo: "Era infinitamente mais, e esse "mais" residia no zelo de uma burocracia muito elaborada e disseminada. A burocracia formava um mundo secreto, um mundo negligenciado, e, a partir do dia em que o compreendi, nada me fez recuar na tentativa de forçar as suas janelas cerradas e as suas portas aferrolhadas". Esta perspectiva leva Hilberg a interessar-se pelos executores alemães. A destruição dos judeus era uma realidade alemã e, em sua opinião, seria impossível apreender a verdadeira dimensão do genocídio nazi sem conhecer os mecanismos dos actos dos executores. "A certeza de que a perspectiva do executor oferecia a primeira pista a seguir tornou-se para mim uma doutrina que nunca mais abandonei." A análise, durante o julgamento de Nuremberga, da correspondência interna dos nazis permitiu-lhe formular as suas primeiras hipóteses: a destruição dos judeus não foi uma operação centralizada, mas obra de um aparelho burocrático com vida própria que se estendeu a todos os grandes sectores da sociedade alemã; a "Solução Final" não foi um plano preconcebido, mas sim um processo com uma lógica interna que levava a que cada etapa fosse condição necessária da seguinte, cada vez mais gravosa: primeiro, a definição de quem era judeu; depois, a sua concentração; finalmente, o seu aniquilamento. Ao iniciar a sua investigação, Hilberg sabia que entrava num território até então evitado pelos especialistas e pelo público. Com efeito, vivia-se uma época em que ninguém estava interessado nesse tema: incentivava-se aqueles a quem as lembranças torturavam - os sobreviventes - a esquecer, e a preocupação que presidia ao julgamento de Nuremberga era mais a de fechar um ciclo do que entender a história da Alemanha. Prematura, a tese de Hilberg, representava um passado que não se queria evocar. Durante mais de sete anos, Hilberg viveu mergulhado num mundo à parte, analisando dezenas de milhares de documentos exclusivamente de fontes alemãs, sem descurar os mais anódinos: "Ao longo do meu trabalho, nunca comecei pelas grandes questões, porque receava magras respostas", dirá mais tarde a Claude Lanzmann, autor do documentário Shoah. Terminada em 1955, só em 1961 Hilberg conseguiu editor para a sua obra. Mas a publicação passou quase despercebida do grande público e, de uma forma geral, não foi bem recebida pelos especialistas. Com efeito, Hilberg demonstrava que o massacre dos judeus tinha sido um acto nacional, no qual os alemães tomaram parte como nação, contrariando frontalmente a tese então dominante de que regime nazi era uma aberração da história, imposto contra a vontade da população. Por outro lado, em contradição absoluta com a visão do recém-criado Yad Vashem, de Jerusalém, que, sobretudo nos primeiros anos, privilegiava o lado heróico dos resistentes judeus, Hilberg sustentava que a passividade judaica tinha contribuído para o seu próprio processo de destruição. Mas, à diferença de Hannah Arendt, que centrava nos dirigentes judaicos da época as suas acusações, Hilberg analisava a tradição milenária "que levava os judeus a confiarem em Deus, nos príncipes, nas leis e nos contratos", assim como a convicção alicerçada pela história de que "o perseguidor não destruiria o que podia explorar do ponto de vista económico". Um dia, perante um anfiteatro completamente cheio de estudantes que lhe colocavam pela milésima vez a questão do porquê da ausência de revolta judaica, Hilberg, farto de explicar o terror nazi, a rapidez do esmagamento dos exércitos inimigos - e a passividade ou colaboração de grande parte das populações europeias -, o isolamento, a desorientação e o desarmamento judaico, resolveu responder de outra maneira: "Quem é judeu, entre vós?", perguntou. A grande maioria levantou a mão. "Quem possui uma arma em casa?" Apenas algumas mãos se levantaram. "Apenas quatro ou cinco", concluiu Hilberg. "Ora sabemos que a maioria dos americanos tem armas em casa. E vocês ainda ousam perguntar-me porque razão, em 1940, os judeus da Europa não se defenderam?" Em 1998, participei com Raul Hilberg, em Paris, num colóquio internacional, organizado pelo Centro de Documentação Judaica Contemporânea. Dos numerosos historiadores, investigadores e arquivistas reunidos durante três dias para fazer o balanço da investigação sobre o Holocausto, a minha lembrança mais viva é a dele. Raul Hilberg mantinha-se fiel a si próprio: recusando os floreados, a visão ideológica, a enfatização das questões, a manipulação dos textos. Como toda a sua obra, a sua intervenção foi sem compromissos: "O escritor usurpa a verdade; substitui um texto a uma realidade que se desvanece rapidamente. As palavras tomam, assim, o lugar do passado e retemos mais as palavras do que os acontecimentos. A nossa responsabilidade é, pois, única"...
publicado por MJ às 23:13
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