Segunda-feira, 14 de Maio de 2007

Yom Ha Shoá

Lentamente, como se fosse um mamute despertando de seu sonho milenar, a Europa repete a cerimónia anual e, por um dia, recorda. Não sei se sou eu, que com a idade me torno terna, mas tive a impressão de que este ano havia mais reportagens, mais actos, mais comemorações, talvez um pouco mais de reflexão. Poupo os comentários que ouvi em alguns informativos, mesclando o Holocausto com a questão palestina, ou relativizando o horror, como se fosse um a mais dos horrores humanos, como se houvesse muitos holocaustos na história da humanidade. Neste sentido, não me cansarei de repetir: a história está cheia de barbáries e de loucuras, mas nenhum episódio da história é comparável à única indústria de extermínio que o ser humano criou. Minimizar a maldade é tanto como começar a entendê-la. E se algo se pareceu à maldade em estado puro — "o mal existe", nos lembra o grande prémio Nobel Elie Wiesel —, foi a Shoá, o Holocausto. A Shoá significou arrancar pela raiz milhares de famílias inteiras, com suas crianças, seus avós, seus pais e mães; arrancar povos inteiros, com seus professores, seus médicos, seus músicos, seus alfaiates e seus poetas; arrancar geografias inteiras, com seus cantos, seus idiomas, suas fotos de festa, suas bodas e seus enterros, sua memória e seu futuro; arrancá-lo todo e destruí-lo em fornos crematórios. Um milhão de crianças, nascidas romenas, húngaras, polacas, alemãs, gregas, italianas, francesas, trasladadas em vagões da morte, e finalmente, assassinadas por ser judias. E mais além das crianças, milhões de pessoas, umas assassinadas por estar marcadas com qualquer estigma, homossexuais, ciganos, revolucionários, párias; outros por formar parte do povo eternamente perseguido. Em Auschwitz queimamos a face da Europa, destruímos as geografias humanas que nos enriqueciam e nos explicavam, e foi em Auschwitz onde quebramos o sentido da história. Não se trata de um horror a mais. Trata-se do nosso próprio horror, reflectido num grande espelho de maldade, onde a alma do velho continente resulta ser a alma de Dorian Gray. "A morte da alma humana", disse Lanzmann, e nunca ninguém o definiu com mais precisão. Cada ano, nesta data, tiro o espelho de Stendhal e observo os actos, os artigos, os documentários que as televisões, com um pouco de sorte, colocam no horário de baixa audiência. Desgraçadamente, sempre chego à mesma conclusão: nos incomoda relembrar o Holocausto. Tanto, que nunca fazemos o exercício de contrição a que nos obrigaria, mas o tratamos como um acontecimento deplorável da história. Cada ano também, fiel a uma íntima tradição, pego minha caneta, molho a pena no tinteiro da raiva e me ponho a escrever um artigo. Como se fosse um ritual de dor. Como se fosse o que é, uma obrigação moral. Estas são minhas manchas no branco e negro do imaculado texto, meu asco no oásis onde habita a bem-pensante e indiferente sociedade europeia. O Holocausto nunca foi uma questão alemã. O Holocausto nunca foi uma questão judaica. E, sobretudo, o Holocausto nunca foi uma questão nazista. De nada servem os actos de repúdio contra o nazismo, fundados em todos nós mais além de toda culpa e de toda pergunta, se com isso não abrimos nosso melão podre. O nazismo foi o resultado de muitas coisas, entre elas a loucura de um ser malvado e depravado, mas seus crimes nasceram de nossas responsabilidades, se alimentaram dos preconceitos que havíamos criado durante séculos e actuaram graças à nossa indiferença. Foi a Europa que criou o estigma contra o judeu. Hitler só fez o trabalho sujo.Máculas em nossas belas evocações. A mancha da síndrome de Chamberlain, que percorreu a espinha dorsal da Europa durante anos. Primeiro nós lavamos as mãos. Mais tarde, um Papa bendisse os horrores na intimidade. E depois soubemos o que passou, e o esquecemos durante um tempo prudente. Tínhamos os planos dos campos de extermínio, mas nunca consideramos que fosse necessário actuar. Ao fim e ao cabo, com mais ou menos exibição, não éramos todos anti-semitas? Não tínhamos em nossos armários Isabel a Católica e sua Inquisição? Não tínhamos os franceses gritando "morte aos judeus!" enquanto condenavam Alfred Dreyfus à prisão perpétua na Ilha do Diabo? Não havíamos colocado um anti-semita furioso, Kart Lueger, na Prefeitura de Viena? Não acumulávamos progroms nas distantes Rússias? Não líamos ilustres proeminentes e profusamente judeófobos, como Paul Valéry? Não havíamos bebido da ideia do povo deicida enquanto beijávamos nossa católica cruz? Não nos alimentamos do mesmo ódio quando nos reformamos com Lutero? Não o éramos inclusive enquanto sorvíamos os melados da ilustração de Voltaire? Nada, na história da Europa, escapa do ódio aos judeus. E por sua vez, na paranóica dualidade, nada do melhor da Europa é indiferente à contribuição judaica. O anti-semitismo é sócio fundador da Europa. Hitler foi a estação final de nosso ódio, nosso executor. Não peço que cortemos das nossas carnes em praça pública. Só peço que saibamos de onde nasceu o mal, em que lugar cresceu a besta e, sobretudo, com que olhos cegos, lábios mudos e ouvidos surdos nos mantivemos enquanto a besta matava. Glucksmann chama a esta atitude "a indiferença nihilista", uma atitude que também se produz, actualmente, ante outro fenómeno nihilista, o das bombas humanas. No Iom Ha Shoá (o Dia do Holocausto), com os milhões de mortos gritando-nos sua profunda dor desde as cavidades ocas da má memória; com esse milhão de crianças que foram poesia cortada; com essa sociedade que sentia cheiro de carne queimada, e via os vagões, e conhecia os mapas aéreos do massacre, e olhava para o outro lado; com nossa alma judia rasgada na zona negra do nosso ódio; com a pesada carga da história, nós os europeus só podemos pronunciar uma palavra: perdão.O mais é uma piada.

Tradução; Szyja Lorber
Pilar Rahola : Diario El País. Madrid.
Tags:
publicado por MJ às 22:54
link do post | comentar

Coordenação

MJ
Lisboa, Portugal

Perfil Completo

Contacto

europae65@gmail.com

Links

Tags

todas as tags

Posts Recentes

A Vida dos Livros por Gui...

Os Justos das Nações

Para Saul Friedländer, o ...

Enciclopédia do Holocaust...

Diabólica alquimia totali...

I conferência sobre o Hol...

Friedländer homenageado n...

A Vanguarda do Horror

«Shoah» de Claude Lanzman...

Uma obra dedicada à juven...

A banalização do Mal ou q...

Aristides de Sousa Mendes...

Ensinar o Holocausto aos ...

Somos todos Judeus

Os «Protocolos dos Sábios...

Charlotte Salomon

Um oficial do Exército al...

Holocausto: uma obsessão ...

"Memória do Holocausto". ...

Yad Vashem distinguido na...

Arquivo do Blog

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

blogs SAPO

Subscrever feeds