Terça-feira, 6 de Novembro de 2007

A Vida dos Livros por Guilherme d'Oliveira Martins

Ensinar o Holocausto no Século XXI” de Jean-Michel Lecomte, com prefácio de Esther Mucznik (Via Occidentalis, 2007) é uma obra de valor pedagógico promovida pelo Conselho da Europa que nos alerta para a importância de cuidar da memória de modo a prevenir a intolerância, a cegueira e a barbárie com que o mundo se confrontou no século XX, num tempo que muitos anunciavam de paz e de entendimento.

 
Auto-retrato de Félix Nussbaum (1942 ?), Museu Nussbaum, Osnabrük. O Autor foi morto na câmara de gás em Auschwitz (3.8.1944)


NÃO HÁ HISTÓRIA MAIS DIFÍCIL… - Hannah Arendt disse que “não há história mais difícil de contar em toda a história da Humanidade” do que a do “Holocausto”. E porquê? “Em primeiro lugar pelo sofrimento intenso de um povo, estilhaçando com fragor insuportável os limites do entendimento humano” – diz-nos Esther Mucznik. “Até hoje, o genocício nazi, programado, sistemático e colectivo permanece para a civilização humana como a referência ética do mal absoluto”. Mas como foi tudo isto possível, quando ninguém esperava? E como foi possível que acontecesse a partir de um país de arte e de cultura? O certo é que tudo aconteceu de um modo sistemático e terrível. Daí que a obra agora saída corresponda à procura de uma consciência moral e cívica que possa contrapor o respeito ao ressentimento e a liberdade à servidão. Nesse sentido, o projecto do Conselho da Europa visa “suscitar o interesse dos jovens pela história recente do nosso continente e ajudá-los a estabelecer ligações entre as razões históricas e os desafios com os quais estão confrontados na Europa actual”. Está em causa a ajuda à criação de uma identificação europeia, o desenvolvimento da análise crítica, a sensibilização para a importância da diferença e do outro e o encorajamento aos professores para lançarem as bases de “um ensino europeu da história”. A dimensão europeia na Educação passa, assim, por um melhor conhecimento da realidade, de tragédia, de diálogo e de conflito, que nos antecedeu, com todas as suas implicações. O estudo da “Shoah” (expressão que significa “catástrofe” e que é utilizada para designar o genocídio perpetrado pelos nazis e seus aliados contra os judeus) e do “Holocausto” (sacrifício) deve, no fundo, permitir-nos ir além das apreciações simplistas ou do mero culto do ressentimento. É essencial entender as fontes da banalização do mal, para que, no futuro, possamos prevenir a sua ocorrência. De facto, entre o excesso de memória e a sua ausência, temos de encontrar um equilíbrio que permita não esquecer, sem fazer da lembrança um motivo de vingança.


APRENDER COM OS FACTOS – Ao longo de 50 fichas elaboradas criteriosamente, podemos obter uma informação bastante rigorosa e circunstanciada sobre o judaísmo, sobre a doutrina nazi, sobre os campos de concentração, sobre as perseguições (também dos Rom/Ciganos e dos homossexuais), sobre a decisão de extermínio, sobre as câmaras de gás e a cremação das vítimas, sobre os campos de extermínio (Auschwitz-Birkenau, Belzec, Chelmno, Lublin-Maidanek, Sobibor, Treblinka); sobre os “sonderkommandos” (encarregados das operações nos campos de morte – desde a preparação para as câmaras de gás até aos fornos crematórios); sobre a situação nos diversos países afectados; sobre as reacções dos judeus; sobre “os justos” (que ajudaram o povo judaico durante a Shoah); sobre as opções dos Aliados; sobre o número de mortos (cerca de 5 milhões de judeus); sobre o regresso dos sobreviventes; sobre o silêncio; sobre o revisionismo e o negacionismo; sobre a filmografia do tema e sobre os sítios na Internet. Trata-se de um conjunto de informações sobre o inominável e o injustificável. Como entender tanta cegueira e tanta desumanidade? E como interpretar os resultados da discricionariedade pura? E fica a afirmação de Primo Levi que “menciona um conjunto de ‘pequenas razões’, pequenas partículas de humanidade que se juntaram e que conduziram à sua sobrevivência – por outras palavras, uma sucessão de pequenos pedaços de sorte, de acontecimentos fortuitos”. Por outro lado, fica a realidade insofismável que hoje não pode sofrer contestação: “apesar do reduzido número de sobreviventes, foram registados muitos testemunhos, o que nos leva a considerar por que razão todos contaram o mesmo e por que razão não existem quaisquer provas do contrário”.


A DIFICULDADE DA MENSAGEM – À medida que o tempo passa, atenua-se, contudo, o impacto do drama real e prevalece a ideia mítica ora dos actos heróicos de resistência ora do carácter difuso da culpa e da responsabilidade. No entanto, mais do que os mitos, o que importa é fixar a actualidade do tema e o risco da repetição de acontecimentos tão terríveis e dramáticos. Daí que nas orientações dadas aos professores, no âmbito deste projecto educativo, haja muitas vezes dúvidas e hesitações sobre a eficácia menor ou maior da utilização de determinado exemplo ou instrumento. De facto, temos de contar com a “dificuldade da mensagem” e com o facto dela ter tudo a ver com a construção de uma sociedade mais humana, onde os direitos, as liberdades, as garantias e a responsabilidade pessoal têm de ter um lugar cimeiro. E se nos lembrarmos do exemplo de Janusz Korczak no gueto de Varsóvia vemos que o melhor método educativo é o da prática e do exemplo: “desenvolveu um sistema de organização democrática dos orfanatos – as crianças eram tratadas como indivíduos com plenos direitos e tomavam parte na administração da comunidade”.


DEVER DE MEMÓRIA? - Tzvetan Todorov afirmou que «les enjeux de la mémoire sont trop grands pour être laissés à l’enthousiasme ou à la colère» (Les Abus de la Mémoire, Arléa, 1995, p. 14). Esta é a preocupação fundamental que temos de preservar, a fim de que não haja interpretações unilaterais e abusivas sobre a memória. O dever de memória obriga ao rigor crítico e a prestar justiça – o que também leva à necessidade de compreender as circunstâncias da história para além da vitimação e da ameaça. O entusiasmo e a cólera levam à incompreensão de que a memória se refere à humanidade, e de que, nesse sentido, tem de apelar permanentemente à capacidade de compreender e de nos pormos no lugar do outro.

retirado da web do Centro Nacional de Cultura

publicado por MJ às 23:14
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Quarta-feira, 10 de Outubro de 2007

Uma obra dedicada à juventude

Com o agradecimento à Via Occidentalis Editora publicamos o prefácio incluído na obra Ensinar o Holocausto no Século XXI, de Jean-Michel Lecomte, livro direccionado à compreensão do fenómeno do anti-semitismo que recentemente ganhou uma sinistra actualidade entre nós.


* * *

Prefácio à edição portuguesa por

Esther Mucznik

investigadora em assuntos judaicos

 

Em boa hora, decidiu a Via Occidentalis publicar a tradução do livro Ensinar o Holocausto no Século XXI, editado pelo Conselho da Europa.

 

Trata-se, como é referido na apresentação do mesmo, de uma obra  com uma preocupação essencialmente pedagógica com vista a fornecer um material de apoio – simultaneamente conciso, rigoroso e de fácil consulta –  a professores e alunos.

 

Ensinar o Holocausto não é um desafio fácil. Portugal não foi ocupado por Hitler durante a IIª Grande Guerra, nem sofreu as consequências do Holocausto no seu solo. Mas esta feliz circunstância histórica leva a que, praticamente, apenas a população judaica em Portugal  tenha laços afectivos, memórias concretas, uma relação directa com as vítimas do genocídio nazi. Com efeito, quantos jovens em Portugal poderão dizer “o meu avô contou-me...”? Obviamente bem poucos.

 

Talvez por isso o Holocausto nunca foi objecto de debate público em Portugal como o foi, embora tardiamente, nos países ocupados pelo nazismo. Assim para a maioria esmagadora dos alunos e professores portugueses de hoje, o Holocausto é um acontecimento de que ouviram falar na televisão, através de alguns filmes, de alguns livros ou de alguns textos inseridos em manuais escolares – apesar de há uns anos para cá o currículo escolar contemplar mais detalhadamente o estudo do nazismo. Mas para os alunos – e eu tive a oportunidade de o constatar pessoalmente várias vezes – o Holocausto é um acontecimento abstracto, visto frequentemente quase como uma ficção.

 

O facto de já se terem passado mais 60 anos, torna também mais difícil o ensino do Holocausto, não só pela capacidade de atenção e interesse dos alunos, como da própria motivação de professores e autores de manuais. Sabemos como a nossa sociedade – e não só a portuguesa – está virada para a vertigem da actualidade e para o efémero: o que é hoje acontecimento deixa de o ser amanhã. E neste contexto, sessenta anos é uma eternidade...

 

Mas não são estas as únicas dificuldades do ensino do Holocausto, nem talvez as principais. “Não há história mais difícil de contar em toda a história da Humanidade”, afirmou Hannah Arendt. Porquê? Em primeiro lugar pelo sofrimento intenso de um povo, estilhaçando com fragor insuportável os limites do entendimento humano. Até hoje, o genocídio nazi, programado, sistemático e colectivo permanece para a civilização humana como a referência ética do mal absoluto.

 

Mas também porque é uma história que põe radicalmente em causa os valores em que fomos formados, as nossas certezas mais profundas: que através da cultura e da educação o homem se vai aperfeiçoando; que é tanto mais moral quanto mais instruído; que a ciência é uma escola de progresso, racionalidade e aperfeiçoamento. O extermínio nazi deitou por terra essa perspectiva: ocorreu num dos países mais industrializados, povoado por uma das nações mais cultas e instruídas do mundo. “Esperávamos o pior, mas não o impossível”, afirma uma sobrevivente. Depois do Holocausto ficámos a saber que o impossível se tornou uma possibilidade em aberto.

 

Não é, pois, fácil ensinar o Holocausto e sobretudo educar contra o Holocausto. Mas é um assunto que não pode ser evitado porque tem a ver com os próprios fundamentos da nossa civilização. Auschwitz tornou-se, pela negativa, património da humanidade.

 

Na história negra deste período há, no entanto, alguns raios de luz representados por homens e mulheres que contra tudo e contra todos, tiveram a coragem de se opor à barbárie, escondendo e salvando judeus e não judeus, resistentes ou simples pessoas, arriscando frequentemente a própria vida. Ensinar o Holocausto no século XXI  evoca esses “Justos das nações” título a eles atribuído por Israel em reconhecimento da sua acção de salvamento. Entre eles nunca será demais lembrar Aristides de Sousa Mendes, cônsul de Portugal em Bordéus (França) que à revelia do seu governo e arriscando a sua carreira e bem-estar pessoal e familiar concedeu milhares de vistos à multidão de refugiados que procurava desesperadamente escapar da Europa ocupada.

 

Portugal declarou a neutralidade política durante a guerra e desde o seu início muitos judeus e outros perseguidos tentaram escapar aos nazis obtendo um visto de trânsito em Portugal. Mas, à medida que chegavam mais refugiados, a política de fronteiras foi-se tornando mais apertada: os cônsules só podiam conceder vistos depois de autorizados pela polícia política e pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros e, após a ocupação alemã de Paris em Junho de 1940, apenas a quem dispusesse de um bilhete de saída de Portugal e de um visto de entrada num país de exílio.  Apesar de todas estas dificuldades, houve mais de cem mil refugiados que conseguiram salvar-se através de Portugal, a maioria entrando clandestinamente ou com vistos dados por Aristides de Sousa Mendes. “Era realmente meu objectivo salvar toda aquela gente, cuja aflição era indescritível”, afirmará mais tarde Aristides de Sousa Mendes.

 

A sua coragem teve um preço exorbitante: Salazar demitiu-o e o cônsul ficou na miséria sendo obrigado a viver da caridade para sustentar a sua numerosa família até à morte em 1954. Outros diplomatas portugueses souberam também fazer prova de humanidade e compaixão: Sampaio Garrido e Teixeira Branquinho, na Hungria; José Luis Archer, em Paris; Lencastre e Menezes, em Atenas; Giuseppe Agenore Magno, cônsul honorário em Milão, todos eles concederam vistos sem autorização, comprometendo as suas carreiras e vidas pessoais.

 

No entanto, nenhum salvou tantos, nem pagou um preço tão elevado como Aristides de Sousa Mendes. Talvez por isso, no Yad Vashem, em Jerusalém, onde o cônsul tem uma árvore plantada em seu nome na Ala dos Justos, as autoridades israelitas considerem que entre todos, foi Aristides de Sousa Mendes que sozinho e contra o seu próprio governo salvou mais vidas. “Talvez seja por isso que a sua árvore é a mais alta de todas”, concluem com um sorriso...

 

A terminar, não quero deixar de saudar a editora Via Occidentalis pela publicação deste livro. Espero que ele contribua decisivamente para ajudar professores e alunos a conhecer e a reflectir sobre a pior catástrofe do século XX. Esta é sem dúvida a melhor maneira de impedir a sua repetição.

publicado por MJ às 14:20
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Terça-feira, 9 de Outubro de 2007

Ensinar o Holocausto aos jovens

EUROPA ENTREVISTA

4ª FEIRA, 10 DE OUTUBRO - 19H05

SÁBADO, 13 DE OUTUBRO - 18H05 (redifusão)

Lisboa 90.4 FM

A propósito da edição em Portugal do livro "Ensinar o Holocausto no século XXI", de Jean-Michel Lecomte (Editora Via Occidentalis), o Europa Entrevista convida esta semana Esther Mucznik, vice-presidente da Comunidade Israelita de Lisboa, para falar das ameaças da extrema-direita na Europa (como a recente profanação de campas no Cemitério Israelita em Lisboa) e do actual momento do processo de Paz no Médio Oriente.

Europa Entrevista : uma edição de Mónica Peixoto.

Emissão também disponível online em www.radioeuropa.fm / Jazza-me muito... ou através da powerbox da TV Cabo.
publicado por MJ às 10:57
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Segunda-feira, 8 de Outubro de 2007

Somos todos Judeus

«Assim que chegaram ao cemitério judaico de Lisboa, os ministros da Justiça, Alberto Costa, e da Administração Interna, Rui Pereira, foram, de kipas na cabeça, visitar as campas profanadas pelos ‘skins’ no passado dia 25. As cruzes suásticas estavam escondidas por 17 panos brancos que cobriam os túmulos em sinal de respeito pelos mortos. As pedras mais pequenas que tradicionalmente decoram as campas estavam ainda fora do sítio. Mais ninguém pode visitá-las para não invadir a intimidade das famílias.

Depois de lhes ter sido explicado como as famílias ficaram devastadas com o acto anti-semita, foram encaminhados para a cerimónia Taharat Kevurot (Purificação dos Túmulos), que visou mostrar o repúdio e indignação da Comunidade Judaica, que espera ter sido apenas um acto inédito e isolado.

Representantes das comunidades hindu, ortodoxa, bahai, católica, o alto-comissário para as Minorias, embaixador israelita, Paulo Portas, Esther Mcznick e, entre outros, o Rabi Eliezer Shai Di Martino (estes últimos da comunidade judaica) juntaram--se ontem para condenar a profanação e rezar pelos mortos incomodados.

O presidente da comunidade israelita, José Oulman Carp, afirmou que o vandalismo trouxe à memória as perseguições que o povo judeu sofreu e também o holocausto. “Portugal é uma das melhores democracias do Mundo. Esperemos que se faça justiça”, disse.

Rui Pereira criticou as atitudes racistas e discriminatórias e mostrou estar solidário. “Perante aqueles actos hoje sou judeu, somos todos. E como ministro posso afirmar que estes atentados não ficarão impunes e que não se vão repetir”, afirmou.

Solidário e crítico, Alberto Costa defendeu um estado laico, onde há liberdade e respeito por todos, e disse esperar que os tribunais condenem os profanadores. E, como Rui Pereira, afirmou que hoje “somos todos judeus”.

VÂNDALOS LIBERTADOS

O ‘Lobo nazi’, como se apresenta o skinhead Carlos Seabra, de 24 anos, vandalizou o cemitério judaico em Lisboa no passado dia 25 com João Dourado, de 16. Saltaram o muro e profanaram 17 campas inscrevendo cruzes suásticas e defecando em cima de duas delas. Foram apanhados pela PSP, mas o juiz devolveu-lhes a liberdade no dia seguinte.

PORMENORES
JUDEOFOBIA
O rabi fez questão de afirmar que a vida da comunidade judaica em Portugal e, especificamente em Lisboa, não vai parar por causa dos actos de vandalismo. E chamou à atenção para a ainda existente judeofobia.

DEPOIS DA SUKOT
A festa das cabanas – Sukot– é para os judeus o ponto máximo de alegria do ano. Terminada a festa de sete dias, onde se come em frágeis cabanas, a comunidade judaica juntou-se para condenar a profanação.

Correio da Manhã/Ângela Lopes

publicado por MJ às 18:37
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Sexta-feira, 28 de Setembro de 2007

Cemitério Judaico de Lisboa vandalizado II

Espancou um imigrante quando festejava o aniversário do nascimento de Hitler, a 20 de Abril, e guardava fotografias de crianças negras com a frase ‘Por favor não alimentem os animais’. Está acusado de vários crimes mas, terça-feira, o ‘Lobo nazi’, como se apresenta o skinhead Carlos Seabra, vandalizou o cemitério judaico em Lisboa. Foi apanhado pela PSP e o juiz mandou-o ontem à tarde em liberdade.

Seabra é quase veterano do movimento neonazi em Portugal, aos 24 anos pertence à Frente Nacional desde a fundação em 2004. E é um militante de armas. Enverga camisolas com a cruz suástica e, em Abril, a Judiciária apanhou-lhe uma espingarda semi-automática, uma granada e dois punhais.

Está acusado num megaprocesso com 240 páginas por discriminação racial, ofensas à integridade física qualificadas e três crimes de posse ilegal de armas proibidas. Vai ter de responder em tribunal entre 36 skinheads acusados, mas, ao contrário do líder Mário Machado, aguarda o julgamento em liberdade.

O ‘Lobo nazi’ recebeu a acusação do Ministério Público (MP) no último dia 15 mas, dez dias depois, na noite de terça-feira, voltou a atacar. Recrutou o iniciado João Dourado, 16 anos, e partiram os dois para o cemitério judaico de Lisboa, na Avenida Afonso III. Saltaram o muro e rasparam vinte campas com objectos contundentes, gravando cruzes suásticas antes de defecarem em dois túmulos. Os prejuízos são de vários milhares de euros.

Um popular ouviu barulho e chamou a PSP às 22h50. Os dois skins acabaram apanhados em flagrante e, enquanto um tinha ‘Morte aos traidores’ tatuado no braço, o outro tinha a frase na camisola.

João também é membro da Frente Nacional, que visa “a guerra racial e acções violentas, pela supremacia da raça branca”, segundo o MP. E para eles não há lugar a “negros, judeus, ciganos ou homossexuais – são inimigos de Portugal”.

O MP pediu a prisão preventiva para os dois skinheads, sobretudo pelo perigo de alarme social, mas o juiz de Instrução Criminal decidiu-se pelas apresentações aos domingos à PSP.

"É LAMENTÁVEL NUM PORTUGAL DEMOCRÁTICO"
A comunidade israelita repudia os actos “de puro racismo e anti-semitismo” no cemitério judaico de Lisboa, segundo a porta-voz Esther Mucznik. “É lamentável que num Portugal democrático e livre se verifiquem estes acontecimentos e isto torna-nos apreensivos e indignados”, naquela que foi “a primeira vez que um cemitério foi vandalizado desta forma”.

São actos que “infelizmente não surpreendem”, diz Abílio Mourão, presidente da mais antiga comunidade judaica portuguesa, em Belmonte, Castelo Branco, apesar de na sua zona a convivência sempre ter sido “pacífica”. E também o Alto Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas reagiu ontem, condenando “de forma clara este tipo de actos. É um crime contra a comunidade judaica e uma ofensa à sociedade civil portuguesa e à democracia”.

TINHAM ALVOS JUDEUS MARCADOS
Os cartões dos telemóveis de Carlos Seabra, o ‘Lobo nazi’, e João Dourado denunciaram-nos entre terça-feira à noite, quando foram detidos, e ontem à tarde, antes de serem presentes ao Tribunal de Instrução Criminal. Os investigadores apanharam várias ligações dos dois à Hammerskin Nation, a elite do movimento neo-nazi europeu – e “guardavam fotografias de pessoas ligadas à comunidade judaica. Alvos marcados”.

Um dos crimes em que incorrem os skinheads não prevê prisão preventiva – profanação, punido até dois anos de cadeia – mas o outro, dano qualificado, pelos elevados estragos nas campas do cemitério, tem moldura penal entre dois e oito anos – suficiente para ser aplicada a prisão preventiva no novo Código de Processo Penal (acima de cinco anos). E o Ministério Público pediu prisão preventiva para os dois, dado o elevado perigo de reincidência e alarme social, mas o juiz decidiu-se pelo Termo de Identidade e Residência, medida de coacção mais leve, com apresentações ao domingo à PSP. E tudo apesar do “desprezo manifestado pelos dois pela comunidade judaica” – num contexto de “reacção e indiferença” à acusação que o MP proferiu há duas semanas contra 36 skins, entre eles o ‘Lobo nazi’.

PORMENORES
PROIBIDO RECORRER
O Ministério Público é obrigado a conformar-se com a liberdade dos dois skinheads e não pode recorrer da decisão do juiz de instrução criminal, pelo artigo 219 do novo Código de Processo Penal. O MP já só o poderia fazer em benefício do arguido – a prisão preventiva está fora de questão.

RITUAL DE INICIAÇÃO
O skinhead João Dourado já pertence à Frente Nacional, mas, aos 16 anos, passa ainda por rituais de iniciação ao movimento neo-nazi, apurou o CM. E a profanação ao cemitério judaico foi um deles – a forma de subir na estrutura nacional.

EXIBIÇÕES NA NET
O ‘Lobo nazi’ lançou um dia no site da Frente Nacional: “Continua a quebrar as regras até ao fim”. E num vídeo intitulado ‘Nazi paraquedista’, no site do Youtube, colocou imagens suas a envergar uma camisola com a cruz suástica enquanto arrancava um cartaz da CDU.


Correio da Manhã - Henrique Machado com M.C.
publicado por MJ às 19:40
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Quinta-feira, 27 de Setembro de 2007

Cemitério Judaico de Lisboa vandalizado

Cemitério Judaico: Comunidade repudia acto «anti-semitismo»

A Comunidade Israelita de Lisboa repudiou hoje o acto inédito «de puro racismo e anti-semitismo» de vandalização, na terça-feira, de cerca de duas dezenas de túmulos do Cemitério Judaico da capital com cruzes suásticas.

Em declarações à Agência Lusa, a porta-voz da Comunidade Israelita de Lisboa, Esther Mucznik, considerou «lamentável que num Portugal democrático, livre se verifiquem acontecimentos de carácter racista e anti-semitista».

«Isto torna-nos apreensivos e indignados», acrescentou, frisando que «é a primeira vez» que o cemitério é vandalizado desta forma.

A comunidade apresentou queixa às autoridades, que detiveram dois jovens suspeitos, e vai dar conhecimento do «acto puro de racismo e anti-semitismo» ao governo e à Comissão da Liberdade Religiosa.

Em comunicado hoje divulgado, a Comunidade Israelita de Lisboa esclareceu que, na noite de terça para hoje, cerca de 20 túmulos no Cemitério Judaico de Lisboa foram vandalizados e nas pedras das lápides inscritas suásticas nazis.

Por sua vez, o Comando Metropolitando da PSP de Lisboa anunciou que foram detidos, na terça-feira, dois homens, de 16 e 24 anos.

publicado por MJ às 10:03
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Sexta-feira, 17 de Agosto de 2007

A política da memória

por Esther Mucznik - 2007.08.16, Público
Investigadora de temas judaicos

No passado dia 4 de Agosto, morreu Raul Hilberg, o grande historiador do Holocausto. A imprensa sublinhou a morte de um "ícone". A verdade é que Hilberg morreu como sempre viveu: só, intelectualmente só. O seu destino foi traçado pelo turbilhão da primeira metade do século XX: filho único de uma família judia originária do Nordeste do Império Austro-Hungaro, de língua polaca e emigrada para Viena no princípio do século XX, refugiou-se com a sua família em 1939 nos Estados Unidos. Raul tinha 13 anos e a sua primeira lembrança, enquanto viajava de autocarro de Miami em direcção a Nova Iorque, foi a inscrição nos bancos reservados para "as pessoas de cor". "Eu, que não estava autorizado a sentar-me nos bancos dos parques de Viena com a inscrição Nur fur Arier (só para arianos), acabava de ser catapultado para um escalão superior ao de muitos americanos nascidos na América", escreveu ele no seu derradeiro livro, A política da memória. Tal como os seus pais, trabalha numa fábrica enquanto acaba o liceu e inicia os estudos de Química, que interrompe aos 18 anos, quando é mobilizado para o exército, em 1944. Sob uniforme americano, parte para a Europa, onde assiste ao final da guerra e onde algumas questões que o perseguirão ao longo da vida começam a aflorá-lo: "Numa noite de Abril de 1945, na Baviera, eu contemplava o solo juncado de cadáveres de alemães mortos e rechaçados pela nossa artilharia, depois de uma tentativa desesperada de assalto. O que tinha levado esses homens num estádio terminal da guerra a precipitarem-se em direcção a uma morte quase certa? Porque obedeceram a uma ordem dessas? Porque não se amotinaram?". De volta a Nova Iorque, Raul Hilberg abandona definitivamente a Química e concentra-se na História e nas Ciências Políticas. A sua origem austríaca e europeia, a deportação e a morte de avós, tios e primos no Holocausto e a sua estadia na Europa no final da guerra determinam o tema a que dedicará toda a sua vida: a destruição dos judeus da Europa. Esta destruição, Hilberg não a vê como um massacre no sentido clássico do termo: "Era infinitamente mais, e esse "mais" residia no zelo de uma burocracia muito elaborada e disseminada. A burocracia formava um mundo secreto, um mundo negligenciado, e, a partir do dia em que o compreendi, nada me fez recuar na tentativa de forçar as suas janelas cerradas e as suas portas aferrolhadas". Esta perspectiva leva Hilberg a interessar-se pelos executores alemães. A destruição dos judeus era uma realidade alemã e, em sua opinião, seria impossível apreender a verdadeira dimensão do genocídio nazi sem conhecer os mecanismos dos actos dos executores. "A certeza de que a perspectiva do executor oferecia a primeira pista a seguir tornou-se para mim uma doutrina que nunca mais abandonei." A análise, durante o julgamento de Nuremberga, da correspondência interna dos nazis permitiu-lhe formular as suas primeiras hipóteses: a destruição dos judeus não foi uma operação centralizada, mas obra de um aparelho burocrático com vida própria que se estendeu a todos os grandes sectores da sociedade alemã; a "Solução Final" não foi um plano preconcebido, mas sim um processo com uma lógica interna que levava a que cada etapa fosse condição necessária da seguinte, cada vez mais gravosa: primeiro, a definição de quem era judeu; depois, a sua concentração; finalmente, o seu aniquilamento. Ao iniciar a sua investigação, Hilberg sabia que entrava num território até então evitado pelos especialistas e pelo público. Com efeito, vivia-se uma época em que ninguém estava interessado nesse tema: incentivava-se aqueles a quem as lembranças torturavam - os sobreviventes - a esquecer, e a preocupação que presidia ao julgamento de Nuremberga era mais a de fechar um ciclo do que entender a história da Alemanha. Prematura, a tese de Hilberg, representava um passado que não se queria evocar. Durante mais de sete anos, Hilberg viveu mergulhado num mundo à parte, analisando dezenas de milhares de documentos exclusivamente de fontes alemãs, sem descurar os mais anódinos: "Ao longo do meu trabalho, nunca comecei pelas grandes questões, porque receava magras respostas", dirá mais tarde a Claude Lanzmann, autor do documentário Shoah. Terminada em 1955, só em 1961 Hilberg conseguiu editor para a sua obra. Mas a publicação passou quase despercebida do grande público e, de uma forma geral, não foi bem recebida pelos especialistas. Com efeito, Hilberg demonstrava que o massacre dos judeus tinha sido um acto nacional, no qual os alemães tomaram parte como nação, contrariando frontalmente a tese então dominante de que regime nazi era uma aberração da história, imposto contra a vontade da população. Por outro lado, em contradição absoluta com a visão do recém-criado Yad Vashem, de Jerusalém, que, sobretudo nos primeiros anos, privilegiava o lado heróico dos resistentes judeus, Hilberg sustentava que a passividade judaica tinha contribuído para o seu próprio processo de destruição. Mas, à diferença de Hannah Arendt, que centrava nos dirigentes judaicos da época as suas acusações, Hilberg analisava a tradição milenária "que levava os judeus a confiarem em Deus, nos príncipes, nas leis e nos contratos", assim como a convicção alicerçada pela história de que "o perseguidor não destruiria o que podia explorar do ponto de vista económico". Um dia, perante um anfiteatro completamente cheio de estudantes que lhe colocavam pela milésima vez a questão do porquê da ausência de revolta judaica, Hilberg, farto de explicar o terror nazi, a rapidez do esmagamento dos exércitos inimigos - e a passividade ou colaboração de grande parte das populações europeias -, o isolamento, a desorientação e o desarmamento judaico, resolveu responder de outra maneira: "Quem é judeu, entre vós?", perguntou. A grande maioria levantou a mão. "Quem possui uma arma em casa?" Apenas algumas mãos se levantaram. "Apenas quatro ou cinco", concluiu Hilberg. "Ora sabemos que a maioria dos americanos tem armas em casa. E vocês ainda ousam perguntar-me porque razão, em 1940, os judeus da Europa não se defenderam?" Em 1998, participei com Raul Hilberg, em Paris, num colóquio internacional, organizado pelo Centro de Documentação Judaica Contemporânea. Dos numerosos historiadores, investigadores e arquivistas reunidos durante três dias para fazer o balanço da investigação sobre o Holocausto, a minha lembrança mais viva é a dele. Raul Hilberg mantinha-se fiel a si próprio: recusando os floreados, a visão ideológica, a enfatização das questões, a manipulação dos textos. Como toda a sua obra, a sua intervenção foi sem compromissos: "O escritor usurpa a verdade; substitui um texto a uma realidade que se desvanece rapidamente. As palavras tomam, assim, o lugar do passado e retemos mais as palavras do que os acontecimentos. A nossa responsabilidade é, pois, única"...
publicado por MJ às 23:13
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